Subnigrun: fronteira

2017-19

 

Subnigrum, 2017, acrilico s/ tela, 110x106 cm. (cada)

 

Fronteira, 2018, jato de tinta sobre papel de algodão, 50×70 cm.(cada). Edição de 3+1 prova de artista

 
 


Perspetivismo (segundo Deleuze), 2019, madeira, acrílico, objetos de ferro e borracha, 425x165 cm.

Rastro, 2018, vídeo Full HD, PAL, 16:9, cor, 3’32’’, loop. Edição de 3+1 prova de artista

Artefacto I, 2019, madeira, acrílico, objetos de ferro, fio eléctrico, led, 60x60 cm.

 

 

 

  Neste projeto, Ana Vieira Ribeiro introduz um corpo de trabalho inovador e simultaneamente muito coerente face ao conjunto de obras anteriormente realizadas: trata-se do desenrolar da sua reflexão sobre os conceitos de tempo e de espaço, enquanto condições prévias e fundamentais à vida humana. Esta nova serie - subnigrum - que apresenta “fronteira” como primeiro capítulo, consolida a relação da artista com os meios digitais, incorporando na sua reflexão práticas contemporâneas como a fotografia e o vídeo digital, em diálogo com a instalação e a pintura. Assim, apropriando-se da arquitectura e objectos de uso quotidiano, Ana Vieira Ribeiro parte da sua existência real, em favor da sua decomposição e reconfiguração com o fito de novos entendimentos artísticos.

  Se o tempo é compreendido como a duração relativa das coisas que cria no humano a ideia de presente, passado e futuro, por sua vez, o espaço é entendido como o lugar geográfico sobre o qual, é possível agir através da deslocação física. Desta diferenciação Lagneau terá afirmado, “o espaço [como] sinal do nosso poder, [e] o tempo [como] sinal da nossa impotência”¹. Mas a dimensão que estes dois conceitos conhecem, na obra da artista é como que desmontada pela sua intervenção e consecutivo entendimento destes como um rastro² — como um ponto de vista perspéctico³ de continuidade do agora e do não-agora, onde o presente deixa de ser tomado como ponto de charneira entre passado e futuro, para passar a ser um lugar subjectivo, definido pela presença e sensibilidade do espectador.

  A obra surge assim dentro de uma largura espácio-temporal imprecisa, como uma sucessão de actos onde os personagens emergem da sombra para silenciosa e pausadamente se revelarem ao olhar do espectador. Estes personagens são, pois, os elementos representados pela pintura ou os capturados pela fotografia — as janelas, mesas, cadeiras, isto é, os elementos da paisagem humana quotidiana. Quanto aos objectos recolhidos — esses verdadeiros artefactos, são retirados da sua função original para se tornarem, através do reposicionamento e disposição composicional, contentores de um novo sentido artístico, desafiando a curiosidade e a memória.

  A uma outra presença capital corresponde a luz, que os elementos desvela. Os seus raios luminosos, envoltos na escuridão, atestam a evidente referência ao chiaroscuro do Barroco, começando na pintura para se propagar às demais conformações apresentadas. A luz, no seu jogo com a escuridão manifesta-se, como a protagonista: firma a negociação entre o esperado e o inesperado, estabelece o convite à deslocação do espectador, possibilitando a abertura a vários pontos de vista através dos quais o olhar pode conhecer uma efectiva transformação.

  O papel preponderante da luz e do tempo, na sua íntima relação com o lugar, evidencia-se ainda no vídeo “rastro”, que toma como ponto de partida uma estação ferroviária e também antiga alfândega, agora devoluta. Pela documentação da agência da luz no seu interior, forma-se a imagem do tempo e da sua passagem. À reflexão sobre o peso do tempo anexa-se, assim, a reflexão sobre a drástica transição de certos espaços, com a sua passagem a “não-lugares”, tal como proposto por Augé4, aos quais ninguém verdadeiramente pertence.

  Deste modo, do conjunto de obras em “subnigrum: fronteira” apresentadas, ressalta ainda a mediação entre a ficção e a memória, entre a criação artística e a abertura de um campo documental e especulativo, como uma menção da arte à arqueologia.

Andreia César

 

¹ Lagneau, J. (1964),Célèbres leçons et fragments, Chicoutimi: Québec. §40
2 Derrida, J. (1968),”A Diferença” In Margens da Filosofia, Rés-Editora. passim
³ Deleuze, G. (1991),A dobra: Leibniz e o barroco, Papirus Editora: Campinas. p.36
4 Augé, M. (2005), Não-lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade. Lisboa: 90º Graus. Passim